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O Barbeiro

  • 21 de abr. de 2020
  • 7 min de leitura

Levantei-me de forma muito animada, estava feliz por ter acordado cedo, era importante regular o horário do sono, já que desde muito tempo eu não fazia isso, as olheiras já estavam enormes. Quando cheguei no banheiro, tive um asco de imediato, havia esquecido de limpar a porcaria da pia depois que me barbeei, estava imunda, tratei logo de jogar todos aqueles pelos remanescentes na privada e dar descarga, haviam vários.

Quando estava me olhando no espelho, depois de ter escovado os dentes, dei a famosa olhada diária nas minhas enormes entradas e fiquei melancólico, gordo e careca é foda, mas o que percebi mesmo é que, ironicamente, eu precisava de um corte de cabelo, quando ele cresce, as mexas se envolvem e vira um black power tímido, mas que não cai bem em mim. Catei logo dez reais da carteira, o que no meu barbeiro, é suficiente para pagar um corte (sinto muito aos adoradores de barbearia cara, mas não pago além disso), e fui diretamente rumo ao portão me aventurar nesse meu enorme bairro.

Passando pela minha rua, que nada tem de interessante, apenas velhos e gente jovem demais, o que impede qualquer diálogo, eu avancei descendo uma rua, e comecei a pensar o quão pobre é este bairro, e o quão abandonado às mazelas o mesmo é, da minha rua pra cima, as casas são engenhosas, limpas e esteticamente agradáveis, mas basta descer uma rua e começa os desleixo totalmente não proposital. Quando se tem pouco, a estética, certamente, é a última seara com que uma família pobre tende a se preocupar.

Fui avançando e quanto mais descia, mais humilde eram as casas e seus moradores, os quais, de ver, eu já conhecia muito bem. Quando cheguei ao meu barbeiro, eu percebi que o mesmo estava no fundo da casa, mas tratei logo de juntar as palmas da mão para o efeito sonoro chamar sua atenção, ainda não me acho tão íntimo a ponto de chama-lo pelo nome, e nem tão pouco confortável de nomeá-lo nesta crônica, então o chamaremos de João. João é um homem extremamente religioso, há em seu salão improvisado na garagem de sua casa a foto dos dois últimos papas, além de diversos terços e duas imagens gigantescas, tanto de Maria quanto de Nossa Senhora.

O interessante é que ele se orgulha muito de sua fé, e não a esconde nem por um segundo, qualquer que seja o papo, ele consegue dar uma vertente religiosa a ele. Bom, eu tratei logo de me sentar, ele sempre pergunta:

- Quer abrir o celular e procurar algum corte na internet? Eu faço qualquer um, a garotada daqui sempre faz isso.

- Não, não. Obrigado. Pode cortar daquele jeito que sempre corto mesmo.

Ele sabia o estilo de corte que gostava, bem baixo dos lados e cheio em cima. Ele sempre insistia para que eu fizesse o tal “degrade” pois não sei como, virou moda entre o pessoal da minha idade, eu prontamente sempre dizia não. Então, assim que me sentei, ele logo tratou de começar a realizar o corte.

Primeiro, ele pegou uma máquina bem velha, com a qual retirava o bruto do cabelo, o ruim desta máquina era que de tão velha, ela as vezes dava mal contato e parava bem no meio do corte, o que fazia com que ela prendesse no cabelo e ele em seguida a puxasse, gerando uma dor absurda no couro cabeludo. Ele apenas me olhava pelo espelho e dava uma risada, eu morria de raiva. Tão logo o corte começou, ele já inciou o papo.

- Tive uma audiência esta semana com o Juiz.

Aquilo me despertou uma curiosidade absurda, então o questionei logo, em tom de jocosidade.

- Como assim, João, o que tu fez?

- Ah, era bobeira, foi por conta desse papagaio aqui.

Ele então apontou para o papagaio que o acompanhava repousado em seu ombro, enquanto fazia o serviço, a presença daquele animal ali me assustou das primeiras vezes, mas depois de tantas, era até confortável.

- Eu falei para o Juiz, que ele poderia fazer o que fosse, esse papagaio aqui é meu único amigo, não importo com nada não, nunca vão me tirar ele.

Eu sabia que provavelmente aquele não foi o tom que ele usou para se dirigir ao Juiz, mas o deixei continuar.

- Você não acredita, mas esse papagaio foi Deus que enviou pra mim, ele é de Deus, assim como eu, e quase ninguém nesta cidade é, são todos pervertidos, arrogantes. Tem tanta gente pra prender, tanto vagabundo, ladrão, e o Juiz vem se preocupar com o meu bichinho? Pelo amor de Deus. Eu disse isso a ele.

Eu duvidei, que ele tenha utilizado destas palavras com o Juiz, obviamente ele pensou, mas não disse. Ele sabia que eu era ateu, já havia contado antes, e não sei porque, ele me tratava bem, mas sempre falava de Deus pra mim, ele gostava disso.

- Deus está em todo lugar, eu sabia que ele não tiraria meu bichinho de mim.

- E o que ele fez? Perguntei.

- Multa, muito dinheiro, nem sei como vou pagar, mas se for preciso pra ficar com meu bichinho, eu pago.

Aquilo me comoveu um pouco, gostar de animais é algo que enobrece qualquer homem, achei uma boa atitude por parte dele, mas aquele sentimento não durou muito, logo ele começou a falar novamente.

- Sabe, Deus conversa muito comigo, ele me disse que as pessoas iriam tentar tirar meu amigo de mim, ele conversa comigo (Deus), me fala as coisas, para que eu possa dizer a você e a qualquer um.

De fato, ele era bem pertinente, dava sermões e falava a palavra de Deus aos quatro cantos, mesmo quando não solicitado, até para o meu pai ele foi levar uma água benta uma vez, mas meu pai não recebeu muito bem, é protestante, o que ele condena, pois segundo ele, só existe a verdade dele, e nada mais. Ele já chegou a caçoar da fé de meu pai enquanto cortava o cabelo dele, eu achei muito engraçado, até ele dizer que eu não amava meu pai, pois essa era uma característica dos filhos, aquilo me incomodou, depois vim a saber que ele não tinha uma boa relação com o filho dele, fiquei com dó.

Ele sempre terminava uma frase com um sorrisinho no rosto, olhando pra mim através do espelho, eu devolvia o sorriso e sempre concordava com ele, não ousava discutir, pois além de ser ineficaz, prolongaria a conversa e ele esqueceria de cortar meu cabelo, já aconteceu antes, ele parava tanto para conversar que quase fiquei uma hora inteira lá, depois disso, resolvi ser apenas um ouvinte, por mais absurdo fossem suas frases.

Ele continuou seu monólogo.

- Nesse bairro, há muito perversão, músicas do mundo, coisa errada, eu falo pra todo mundo que eles estão pecando e que vão para o inferno, mas ninguém me escuta, eu começo a rir, quem vai enfrentar a fúria de Deus são eles, não eu.

Ele deu um sorrisinho e continuou.

- O povo gosta de imagem, de parecer rico, eu não, riqueza pra mim é ter Deus.

Nesse momento, ele parou de cortar meu cabelo e foi até o balcão, abriu a gaveta, pegou a bíblia, abriu uma marcação e leu um versículo:

“Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Êxodo 20:4.”

Quando terminou, ele olhou para mim é disse:

- Os crentes interpretam isso daqui errado, Deus não está falando das minhas santas, ele está falando da imagem que você quer passar para outro, de ser o que você não é.

Aquilo me intrigou, de certo modo, poderia fazer sentido realmente, já que a bíblia é cheia de metáforas, porque justo esta parte seria interpretada de forma literal? Mas eu não disse nada, apenas acenei com a cabeça, e ele continuou.

- Eles interpretam errado, eu já disse, estes pastores não sabem o que a bíblia quer dizer. Como Deus fala comigo, eu entendo tudo.

Sobre fortes risadas ele terminou de ler, repousou a bíblia com cuidado no balcão e retomou meu corte, em silêncio desta vez. Aquilo tudo que eu acabara de escutar me fez refletir um pouco, porque eu estava cortando cabelo ali? Porque eu tinha que escutar tamanha abobrinha deste homem? Mas a raiva, à medida que ele terminava meu corte, ia passando.

Eu não discordava muito dele da última interpretação que ele deu para aquele versículo, mas me incomodava nele outra coisa, eu não sabia realmente o que era, eu acho que era a certeza que ele tinha, isso mesmo, a certeza. A certeza sempre me incomodou, como alguém pode ter certeza de alguma coisa neste mundo? Pra mim parecia muita insanidade.

Ele terminou meu corte e perguntou se eu havia gostado, eu respondi que sim. Realmente eu havia gostado, ficou idêntico como das outras vezes, então eu desci da cadeira, entreguei o dinheiro a ele e disse que voltaria em breve, mesmo tendo a certeza de que não voltaria nunca, ele apenas pegou o dinheiro e sorriu.

Enquanto eu estava indo pra minha casa, a certeza de que eu não voltaria mais lá ia se enfraquecendo, e no fim, eu sabia que voltaria, mas não sei bem o porquê, se pelo preço baixo..., não, não, não era isso, era outra coisa, eu não sei, mas eu sabia que voltaria.

João era um cara insuportável, mas além do preço de seu serviço, seu discurso me seduzia, era de fácil compreensão e de uma ingenuidade que eu não sei bem ao certo porque, mas me deixava animado, eu gostava daquilo, no fim, eu acho que gostava da sensação de ter a impressão que sabia mais que ele, e que, intelectualmente, eu era superior. Eu só posso achar que seja isso, mas ainda me gera dúvidas, será que eu concordo com o que ele fala? Eu duvido, mas talvez eu queira ouvir, talvez aquele ambiente totalmente contrário ao meu habitual, de alguma forma, me trazia para a realidade, para a pobreza do meu bairro, para a ingenuidade alheia, para, enfim, o mundo real, coisa que minhas leituras e convivências elitizadas não andavam permitindo. Enfim, eu só posso esperar meu cabelo crescer novamente pra voltar lá e entender de novo o que João tem pra falar.


 
 
 

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